Jet Lag nas corridas, o obstáculo extra

Ser piloto profissional é somar uns bons quilómetros no contador e milhares de milhas aéreas. Para acertar o relógio biológico com o do destino, os heróis do WTCR Oscaro chegam a preparar-se com vários dias de antecedência. Tudo para que o ritmo circadiano entre nos eixos.

Entrar no ritmo

Primeiro há que perceber o que é o ritmo circadiano. Trata-se do período de cerca de 24 horas sobre o qual o ciclo biológico de quase todos os seres vivos se baseia. O ritmo circadiano é influenciado pela luz, temperatura, movimento das marés, ventos, dia e noite. Ele regula a atividade física, química, fisio e psicológica do organismo, influenciando a digestão, o estado de vigília, sono, regulação das células e temperatura corporal.

Se para uma pessoa com um estilo de vida “normal”, estes aspectos têm de ser respeitados de forma a ter uma vida saudável, para os pilotos profissionais, a atenção é redobrada. Emiliano Ventura, preparador físico de elite gere as grandes viagens dos seus pilotos ao milímetro.

“Temos que ter cuidado com a luz, o uso de cafeína, melatonina, a hora que devemos dormir. Dependendo das horas começamos a planificar e antecipar dois a três dias antes da viagem dependendo da diferença horária e da quantidade de escalas”, explicou-nos o fisio. “As escalas são importantes, porque as pessoas têm de acordar durante as escalas, acabando por cancelar uma etapa de descanso. Ao tornarem-se ativas, mexem com o ritmo”.

A famosa luz azul

Os fatores externos que interferem no ritmo circadiano costumam ser a exposição à luz azul de aparelhos eletrónicos. Uma realidade que afeta o nosso dia-a-dia. Hoje em dia, impossível de desviar a atenção do computador ou smartphone. Aparelhos que mudaram a nossa vida e de que maneira!

“A luz azul é o que mais afeta o nosso nivel de sono, recuperação e a capacidade do nosso corpo descansar. Quando começa a desaparecer, o nosso corpo começa a produzir as hormonas que necessita e a entrar em termos de recuperação no sono até chegarmos ao REM em que se produz a hormona de crescimento e se faz toda a regeneração e recuperação”, contou Emiliano, sublinhando que a existência da luz azul em alguns aparelhos, não é por acaso.

“A luz de base de todos os aparelhos multimedia é azul o que faz com que todos tenham um grau de alerta superior. Exemplo disso é uma famosa rede social em que a cor predominante é o azul. Trata-se de uma contra-indicação muito grande a utilização da rede social à noite. Para os pilotos, antes de dormir é completamente proibido o uso do telemóvel ou do computador”, alertou.

Ainda assim, é difícil de imaginar pilotos em modo offline como Tom Coronel. O piloto da equipa Boutsen Ginion Racing é um autêntico animal de redes sociais e raramente o vemos sem o telemóvel na mão.

“É difícil por vezes arrancar o telemóvel das mãos de um piloto (risos). Temos de ser assertivos com eles, porque é para o bem deles. Há que haver um equilibrio. Antes das corridas, o que não devem fazer muitas vezes é ver coisas relativamente a eles, pois começam a entrar em interação com os fãs. De resto é sempre bom saber o que se passa no mundo”, explicou Emiliano.

Exercício, exercício, exercício

Manter o plano de treinos é fundamental para um atleta. Este também deve ser adaptado ao fuso horário, para não quebrar o ritmo ao qual o corpo está habituado. Como as longas horas sentado no avião até ao destino (ou escala) são prejudiciais, os exercícios de baixa e moderada intensidade ajudam os músculos a ajustarem-se e a reduzir a rigidez, despertando as estruturas do corpo a começarem do zero depois da viagem.

“O exercício físico tem de ser feito. O corpo leva algum tempo a acalmar ou voltar a sua normalidade, ou ate mesmo, a entrar em fase de regeneração e recuperação. Por isso, o treino tem de ser feito em “alturas-chave”. Normalmente é na altura em que têm que ver luz e estar mais ativos. Muitas vezes é logo de manhã antes de entrar no avião, outras é a meio do dia, outras durante o voo em que têm que se manter ativos e fazer alguma coisa”, conta-nos o preparador físico.

Os maus e os bons alunos

No que toca a adaptação, há pilotos mais disciplinados que outros. Apesar da tenra idade, o piloto Team Oscaro by Campos Racing, John Fillipi, é dos que se prepara melhor para enfrentar o Jet Lag. Aos 23 anos de idade, sabe como se preparar com antecedência para corridas transatlânticas.

“Uma semana antes, vou para a cama por volta das 18h acordo às 4 da manhã para ir correr”, assumiu. “Três dias antes da corrida, tento ir no voo a meio da tarde para poder dormir no avião. Assim chego de manhã ao destino e basta retomar o ritmo das refeições. No local, faço o máximo para gastar energia para poder adormecer por volta das 20h”.

Quanto aos pilotos mais velhos, esses podem ter mais experiência, mas precisaram de fazer disparates para aprender a lição. Tiago Monteiro é exemplo disso. O piloto da Boutsen Ginion Racing, que está finalmente de regressa à competição depois de uma longa paragem, recordou-nos alguns episódios em que o Jet Lag foi o protagonista.

“Em 2010, a Seat parou oficialmente e fui para a Team Campos SUNRED. Como tínhamos um orçamento muito limitado, para economizar dividia os quartos com outros pilotos. Uma vez no Japão, partilhei o quarto com Yvan Muller. Com o Jet Lag, acordámos à meia-noite porque era impossível dormir. Ficamos acordados até as 5 da manhã (risos)”.

“Lembro-me também da minha primeira vez em Macau. Peguei na moto de um amigo e passeei pela pista a noite toda. Não estava mesmo nada cansado”, confessou.

Para a corrida em Suzuka, esperamos que os pilotos tenham acertado de vez com os relógios, pois a diferença horária para Portugal é de + 6h00. Isso significa que nós também temos que nos manter bem alertas! A qualificação da Race of Japan, será transmitida no wtcr.oscaro.pt amanhã às 4:25 e a Race 1 na sexta-feira às 5:30.

Declarações recolhidas por Nicolas Leca

Descubra todas as informações WTCR Oscaro

Veja Também