Sobreviragem ou subviragem?

Entusiasta de automóveis, ou não, o leitor pode ser uma daquelas pessoas que confunde o bombordo com o estibordo, ou a popa com a proa. Posto isto, deve certamente  ter alguma dificuldade em diferenciar a subviragem e a sobreviragem, dois termos omnipresentes no automobilismo. Mas não se preocupe, Tiago Monteiro, o piloto português da equipa Boutsen Ginion Racing e Aurelien Comte, piloto da DG Sport Competition, vão remediar a situação … No Slovakiaring, entre duas corridas, explicaram …

Sobreviragem

Acto I, cena I : O que é a sobreviragem?

Aurélien Comte, nas traseiras da box : É quando a traseira do carro “foge”. Pode haver várias razões para isso. Imagine que entra numa curva com muita velocidade. A traseira do carro vai deslizar lentamente, até levantar completamente do chão. E neste caso, geralmente sai-se de frente. Segundo cenário: Se travar com muita força … a traseira terá mais velocidade que a frente, e ao mínimo movimento de volante , o carro deslizará. Quando acontece, não é bom sinal.

Acto I, cena II : A sobreviragem é necessária!

Tiago Monteiro, entre dois camiões, no paddock : é obrigatório na competição. É preciso encontrar o equilíbrio.Um carro deve sempre fazer um pouco de sobreviragem. A derrapagem traseira permite que o piloto tenha um melhor ângulo de curva e, portanto, ser mais rápido. Se o carro não derrapar, a traseira terá mais aderência ao chão e andar mais devagar, mas sobre isso falaremos mais tarde (risos). Devemos, portanto, provocar a sobreviragem em condução, como é frequentemente o caso no karting, ou por configuração … (Vá para o terceiro ato para saber tudo).

Acto I, cena III : O dia em que a sobreviragem, fez-me perder a ‘pole’.

Tiago Monteiro recorda-nos um episódio. No fundo, o hino inglês soa em homenagem a Shane Brereton, vencedor de uma partida na corrida de camiões na Eslováquia:

Em 2017, em Vila Real, durante a qualificação, lutava pela pole position com o Norbi (Norbert Michelisz). Chego à última curva, perto da rotunda. Ia mais depressa do que deveria, e o amortecedor traseiro estava com uma fuga … Resultado? Óleo nos pneus traseiros e derrapei. A traseira foi escorregando, curvei mal e quase falhei o muro. Felizmente, consegui recuperar a trajetória no último momento. Foi bem impressionante. Foram certamente umas belas imagens de televisão, mas perdi a pole e quase destruí o carro.

Subviragem

Acto II, cena I : E a subviragem ?

Aurélien Comte, sempre no mesmo lugar. Ele observa o seu companheiro de equipa, Mato Homola, que, em casa, é fotografado com os seus fãs: A subviragem é o oposto: perde-se o controlo da frente. Começa a deslizar quando se está dentro da curva. Por muito que se vire o volante, não funciona, o carro é projetado para o lado de fora. Este fenómeno é devido à saturação dos pneus dianteiros. Eles não aceitam mais grip (aderência) e, portanto, a frente foge. Este é um caso frequente nos carros do tipo TCR. Uma vez que são carros com tração, a força vai para a frente do veículo. Conclusão, o pneu dianteiro usa-se mais rapidamente do que o traseiro, o eixo dianteiro satura, e isso provoca a subviragem.

Acto II, cena II : Controlar a subviragem.

Tiago Monteiro continua as explicações. A dois passos dele, os pais de Benjamin Lessennes, aproveitam o calor do junho eslovaco, deitados em espreguiçadeiras : Um carro sub-aderente é mais seguro de conduzir do que um carro com tendência para a sobreviragem. Na subviragem, é preciso apenas levantar o pé e travar ligeiramente para recuperar a trajetória. Mesmo que isso signifique perder tempo … No entanto, se a sobreviragem é necessária dentro de uma curva, a subviragem também é necessária, mas à saída desta. Isso ajuda a ganhar velocidade. Sempre nas doses certas. Se subvirarmos muito, tornamos-nos mais lentos, derrapamos, guinamos o volante para obter um melhor ângulo de curva e logicamente … Depois de um grande subviragem, vem uma grande sobreviragem, o que é um drama! (sorri).

Acto II, cena III : O Slovakiaring, território da subviragem

Tiago Monteiro :O Slovakiaring é um circuito típico em que a subviragem é muito comum. Aqui há curvas muito longas e muito rápidas. Basta entrar numa curva ligeiramente em subviragem, com alguma ganância, para sofrer as consequências. Ao não travar, e insistir no acelerador com esperança de conseguir curvar, o carro toca na gravilha. Depois, acabou … Aconteceu comigo algumas vezes aqui.

Configurar

Acto III, cena I : Uma questão de configuração.

Aurélien Comte :Existe uma disciplina onde o objetivo é a sobreviragem constante: o drift. Nós tentamos evitar isso, mesmo que seja espectacular. É para isso que servem as configurações.

Tiago Monteiro : Um carro tipo TCR é de subviragem. Por exemplo, o Honda Civic TCR, tem um eixo traseiro pesado que, portanto, adere muito. Por isso, durante os ajustes, certificamos-nos de que perdemos um pouco da tração na traseira, para que o carro seja consiga mais sobreviragem.

Como é um carro de tração (o motor está na frente), exige muito dos pneus dianteiros que acabam por desgastar mais depressa. Então, depois de três ou quatro voltas, os pneus dianteiros estão mortos e isso cria uma subviragem, algo que não queremos. Para evitar isso, configuramos o carro de forma a começar a corrida com mais capacidade de sobreviragem, e muito difícil de conduzir. Quando os pneus dianteiros começam a desgastar, a partir daí, o equilíbrio será perfeito entre a sobreviragem e a subviragem, e o carro será competitivo.

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