Tiago Monteiro: Quando a paixão muda tudo

“Nunca voltes ao lugar onde já foste feliz”, diz o provérbio. A autoria é desconhecida, mas estima-se que terá origem chinesa. Em Portugal preferimos pensar na música “As Regras da Sensatez”, cantada por Rui Veloso. Na letra, o cantor justifica: 

Nunca voltes ao lugar
Onde já foste feliz
Por muito que o coração diga
Não faças o que ele diz

Nunca mais voltes à casa
Onde ardeste de paixão
Só encontrarás erva rasa
Por entre as lajes do chão

Mas, num coração de piloto, de campeão, a paixão fala mais alto. Por isso, regressámos ao lugar onde Tiago Monteiro foi mais feliz. Natural, despido de preconceitos e com o coração aberto, o piloto português que atua no FIA WTCR Oscaro revelou-nos os seus sentimentos do lado da bancada, daquele que é a casa de todas as emoções.

Herói(s) do mar e do asfalto

Depois de muito ponderar, levámos o nosso piloto a um lugar familiar… embora num ângulo diferente. Sentado na bancada do anfiteatro de Vila Real, Tiago inverte o papel ao qual está acostumado a desempenhar. De olhos para o palco onde pisou o pódio, e o lugar mais alto deste em 2016, relembra a festa e o calor humano de quem com ele celebrou momentos de glória, com bandeiras de Portugal e hino nacional cantado num coro praticamente perfeito.

“É uma sensação muito especial e parece que não foi real. Parece que tudo foi um sonho. E quando olhamos agora para esta zona vazia… Ali vi centenas ou milhares de pessoas a gritar por mim a gritar o meu nome e chorar… é uma sensação de facto inexplicável”, disse emocionado.

“É algo muito forte, muito intenso e muito especial. Olhando para lá agora, fico com muitas imagens na minha cabeça. Muitas sensações. Até estou um pouco arrepiado. São memórias que vão ficar marcadas para sempre na minha vida”, explicou deixando o agradecimento a quem mais merece: os adeptos.

“Sem eles, nós não existimos. Sem eles eu não posso praticar minha profissão e devo agradecê-los. Um grande obrigado pela paixão, pelo amor, pelas mensagens de apoio. É algo muito forte e muito intenso”, sublinhou.

A Paixão tudo dá e…tudo tira

Em setembro do ano passado, o desporto automóvel (e não só) recebeu uma notícia que viria abalar esse mundo: Tiago Monteiro sofre grave acidente. A notícia deixa os adeptos e fãs angustiados. Afinal o piloto estava na liderança do WTCC (antigo formato do campeonato do mundo de carros de turismos) e a um passo de conquistar o sonho de se tornar campeão. Quis o destino pregar uma cruel partida numa sessão de testes privados em Barcelona. Tiago sobrevive, mas sai com mazelas graves.

O processo de recuperação é longo e duro, mas o piloto natural do Porto surpreende ao melhorar de dia para dia. No processo conta com a ajuda do preparador físico Emiliano Ventura, do apoio da família e dos amigos. Mas, nada disso seria possível sem a base: a resiliência.

“É preciso ter uma força de vontade incrível para aceitar as dificuldades e transformá-las em força “extra” para atingir os nossos objetivos. Os momentos bons são fáceis, fantásticos e dão energia, sim. O problema é gerir os momentos mais difíceis que fazem parte do nosso dia a dia. É preciso uma força de vontade muito grande e nunca baixar os braços”, assumiu.

“Foi um milagre. Sinto que é verdadeiramente uma segunda oportunidade na minha vida. Dei tudo pelo desporto automóvel. Quase me retirou tudo, mas ainda estou aqui e esta a dar a oportunidade de aprender”, garantiu.

Se pudesse voltar atrás, Tiago certamente que mudaria o seu destino. Mas, a vida é feita de imprevistos e há sempre lições para aprender. Esta é mais uma delas.

"É preciso uma força de vontade muito grande e nunca baixar os braços"

Paixão vs Experiência

Na lista de feitos de Tiago Monteiro estão vários momentos, pódios e vitórias. O terceiro lugar conquistado numa “peculiar” corrida de F1 a 19 de junho de 2005, em Indianapolis é certamente uma das mais belas memórias e um marco na carreira. A partir daquela data, a carreira do piloto mudaria para sempre e o seu nome vincado na história do automobilismo português. Na altura, Tiago tinha (já) 28 anos de idade, mas muito por aprender.

“Quem me dera estar na F1 com a experiência que tenho hoje em dia”, confessou-nos. “Já disse que meus últimos quatro ou cinco anos da carreira foram os melhores em termos físicos e psicológicos, de performance e técnica. Conheço muito melhor as minhas capacidades – pontos fortes e fracos – sei lidar com elas da melhor forma. E isso só se tem com experiência”, explicou.

Já lá vão 13 anos desde o pódio conquistado naquele Grande Prémio, partilhado com os pilotos da Ferrari, Michael Schumacher (vencedor) e Rubens Barrichello (segundo classificado). Se Tiago pudesse voltar atrás e falar com a sua versão mais jovem, o que diria?

“Para aproveitar os momentos todos. Sei que não aproveitei. Pessoalmente, não desfrutei tanto. A pressão é tão grande e as condições tao difíceis…”, assumiu.

A Paixão muda tudo

Numa corrida, o homem transfigura-se. Dá lugar ao piloto, atleta de alta competição preparado e focado num só objetivo: ganhar. Ganhar em prol da equipa, da família, do sonho…seja o que for. Quando a luz verde acende, é a paixão que o guia. Mas, esta chama não surge por comando, é natural. Está presente desde sempre e é ela que alimenta o combustível. A essência de quem nasce para competir.

“Sem paixão é impossível fazer isto.Vivo de uma paixão e não ha ninguém que queira mais que isso. É a paixão em conjunto com as oportunidades que surgem que criam a nossa força. Obviamente que os momentos difíceis são complicados de ultrapassar. O acidente em setembro teve um impacto incrível na minha vida, mas mais uma vez deu-me força para voltar mais forte. Sem a paixão não há nada. A paixão muda tudo. Mesmo”, salientou.

Praticamente recuperado, Tiago aguarda o momento certo para regressar à competição. Nós aguardamos ansiosamente por esse dia.

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